{"id":118,"date":"2024-10-11T16:25:24","date_gmt":"2024-10-11T14:25:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/?p=118"},"modified":"2024-10-11T16:26:37","modified_gmt":"2024-10-11T14:26:37","slug":"memorias-de-bicicleta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/2024\/10\/11\/memorias-de-bicicleta\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de bicicleta"},"content":{"rendered":"\n<p><em>(publicado originalmente em 23 de novembro de 2014)<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">I. <\/h2>\n\n\n\n<p>Demorei um pouco para conseguir me equilibrar pela primeira vez. A maioria das crian\u00e7as \u00e0 minha volta tinha conseguido aos seis, cinco e at\u00e9 quatro anos de idade. Lembro da press\u00e3o se empilhando sobre cada fracasso. At\u00e9 que decidi&nbsp;<em>vai ser hoje&nbsp;<\/em>e me forcei a s\u00f3 voltar para dentro de casa depois de obter sucesso. Passava algum feriado na casa de amigos dos meus pais no litoral paulista e tinha uma Monark aro 16 preta com detalhes em amarelo. Minha estrat\u00e9gia: montar em cima da grama e tentar pedalar em diagonal at\u00e9 alcan\u00e7ar a rua de areia. O trajeto devia ter uns cinco metros, no m\u00e1ximo. Tentei por horas (medidas em tempo de crian\u00e7a), mas quando finalmente consegui, n\u00e3o continuei. Minha forma de comemorar a habilidade rec\u00e9m-adquirida: saltei da bicicleta e voltei empurrando-a. O punho de borracha do guid\u00e3o havia sido furado pelo cano de metal, que estava entupido de areia e tufos de grama pendendo para fora como cabelos. N\u00e3o pedalei de novo por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">II.<\/h2>\n\n\n\n<p>Cavalos-de-pau intermin\u00e1veis no&nbsp;<em>arei\u00e3o<\/em>&nbsp;dos terrenos baldios. Fritar os pneus em freadas bruscas na rua feita de paralelep\u00edpedos afiados (pareciam crivados de vidros). Deixar o pneu ficar careca era uma afirma\u00e7\u00e3o no grupo, mas chegar ao ponto de fazer as costuras vazarem para fora da c\u00e2mara era para poucos. Optava por frear usando a sola dos chinelos, que rapidamente derretiam e ficavam imprest\u00e1veis. Tinha medo que o pneu explodisse.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">III. <\/h2>\n\n\n\n<p>Uma vez pedalei no segundo andar de uma casa em obras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/1aqxUB1pZNx5MvWmgFS32PQ.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-119\" srcset=\"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/1aqxUB1pZNx5MvWmgFS32PQ.webp 640w, https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/1aqxUB1pZNx5MvWmgFS32PQ-300x225.webp 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">IV. <\/h2>\n\n\n\n<p>Vi muita gente se esborrachando feio e se salvando de uma temporada no hospital. Vi gente dando de cara num muro e quebrando a bicicleta ao meio. Vi tamb\u00e9m um amigo perder a roda da frente numa descida alucinada e conseguir aterrissar em p\u00e9, sem qualquer dano, gra\u00e7as \u00e0s suas pernas longas. Outro voou por cima de uma rampa constru\u00edda pelo pessoal do skate, mas no ar a bicicleta tombou e ele, destemido, manteve-se na mesma posi\u00e7\u00e3o, agarrado ao guid\u00e3o como se nada tivesse acontecido, arrastando-se por alguns metros (enxerguei a cena em c\u00e2mera lenta). N\u00e3o lembro de ter ca\u00eddo feio, mas de certa forma um tanto estranha desejava que acontecesse.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"704\" height=\"528\" src=\"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/1LgcyX6V5unRFpHfKcx6TsQ.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-120\" srcset=\"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/1LgcyX6V5unRFpHfKcx6TsQ.webp 704w, https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/1LgcyX6V5unRFpHfKcx6TsQ-300x225.webp 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 704px) 100vw, 704px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">V. <\/h2>\n\n\n\n<p>Esse cara mais velho pediu minha bicicleta emprestada, certa vez. Era o terror da vizinhan\u00e7a. Mal tive tempo de dizer n\u00e3o ele j\u00e1 tinha desaparecido em alt\u00edssima velocidade, saltando lombadas e cal\u00e7adas e arrebentando com tudo. Desapareceu por uma meia hora. Conformado, mas desejando que alguma coisa ruim acontecesse, voltei para casa. Mal fechei a porta e tocou a campainha e l\u00e1 estava ele, sorriso amarelo, joelhos derramando sangue. A bicicleta parecia nova.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(publicado originalmente em 23 de novembro de 2014) I. Demorei um pouco para conseguir me equilibrar pela primeira vez. A maioria das crian\u00e7as \u00e0 minha volta tinha conseguido aos seis, cinco e at\u00e9 quatro anos de idade. Lembro da press\u00e3o se empilhando sobre cada fracasso. 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