{"id":44,"date":"2023-10-18T15:17:00","date_gmt":"2023-10-18T13:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/?p=44"},"modified":"2024-09-22T15:18:34","modified_gmt":"2024-09-22T13:18:34","slug":"videogame","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/2023\/10\/18\/videogame\/","title":{"rendered":"Videogame"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/8b5427de-fa6b-43e6-969e-fd7ba5e7806c.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-45\" srcset=\"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/8b5427de-fa6b-43e6-969e-fd7ba5e7806c.jpg 800w, https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/8b5427de-fa6b-43e6-969e-fd7ba5e7806c-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/8b5427de-fa6b-43e6-969e-fd7ba5e7806c-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Uma amostra de um dos cen\u00e1rios desoladores e ao mesmo tempo estranhamente familiares de Half-Life 2 (aqui, da expans\u00e3o Lost Coast)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">#1<\/h2>\n\n\n\n<p><em>[Publicado originalmente em 15 de outubro de 2014]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira lembran\u00e7a clara: sentado no ch\u00e3o de madeira da casa da zona sul em Porto Alegre, no que sempre se convencionou chamar de A Sala de Baixo: almofadas jogadas, uma televis\u00e3o RCA com tampo de madeira, talvez a lareira acesa no inverno. Pulos, gritos e uma algazarra abafada (ou estimulada) pelos sons rudimentares sa\u00eddos daquela caixa conectada ao aparelho prateado ancorado no ch\u00e3o. Na tela, linhas demarcando a parede de uma esp\u00e9cie de labirinto, c\u00edrculos piscantes fazendo figura\u00e7\u00e3o de vil\u00f5es e uma esp\u00e9cie de inseto branco em fuga atabalhoada controlada pelo joystick.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/href.li\/?http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=j0iPc49LTGc\">Tartarugas, do Odyssey,<\/a>&nbsp;foi o primeiro game que joguei na vida. \u00c9 um pouco estranho fazer essa distin\u00e7\u00e3o, porque h\u00e1 pouca mem\u00f3ria afetiva e consciente antes disso. Quatro para cinco anos de idade, o suficiente para se dar conta que ele, o videogame, sempre esteve l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Na primeira s\u00e9rie, acordava muito cedo para ir para a escola, mas lembro claramente de colocar o despertador para \u00e0s 5:30 da manh\u00e3 para poder jogar uma partida de&nbsp;<a href=\"https:\/\/href.li\/?http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Double_Dragon_II:_The_Revenge\">Double Dragon 2<\/a>&nbsp;antes de tomar o caf\u00e9. Parava sempre mais ou menos no mesmo lugar e nunca cogitei pausar, desligar a TV e continuar depois do almo\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprendi o conceito que as outras pessoas tinham do Natal gra\u00e7as ao videogame. A primeira vez que vi algu\u00e9m ser torturado pela observ\u00e2ncia da data festiva para se ganhar um presente. Um vizinho de pr\u00e9dio em S\u00e3o Paulo sabia que iria ganhar o&nbsp;<a href=\"https:\/\/href.li\/?https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VUrznFnoZJ0\">Predador do Phantom System<\/a>&nbsp;com alguns meses de anteced\u00eancia. Por\u00e9m, s\u00f3 poderia desembrulhar a caixa no dia 25 de dezembro. Descrevia com certa ponta de tristeza, em todos os nossos encontros, como j\u00e1 sabia ao certo que ia poder jogar&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nGvAtj9qVhI\">Predador<\/a>, era s\u00f3 esperar a chegada do Natal, afinal estava ali pertinho. Eu n\u00e3o compreendia a necessidade de esperar por um presente que j\u00e1 se sabe qual \u00e9, se n\u00e3o tem surpresa, d\u00e1 o presente de uma vez. E eu sofria um pouco por ele, afinal j\u00e1 tinha jogado Predador e sabia se tratar de uma verdadeira bomba.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 80 e in\u00edcio dos 90, a \u00fanica fonte de informa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para quem quisesse ler sobre games eram as revistas importadas. Meu pai de vez em quando nos trazia algum exemplar da&nbsp;<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Electronic_Gaming_Monthly\">Electronic Gaming Monthly<\/a>&nbsp;quando chegava do aeroporto. N\u00e3o entendia uma palavra de ingl\u00eas, mas me for\u00e7ava a ler tudo para de alguma maneira tentar achar dicas ou procurar sobre algum lan\u00e7amento vindouro. Lembro claramente de ter visto telas de&nbsp;<a href=\"https:\/\/href.li\/?http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Super_Mario_Bros._3\">Super Mario Bros.3<\/a>&nbsp;que jamais existiram, pois joguei e joguei aquela desgra\u00e7a que provavelmente \u00e9 um dos maiores jogos j\u00e1 feitos e nunca, jamais vi uma cena onde o Mario escorrega numa rampa de tijolos azuis em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 tela, como se fosse aterrissar na sala. Mas essa imagem ficou na minha cabe\u00e7a por anos e nunca consegui concluir se vi uma foto de uma vers\u00e3o demo, se sonhei por causa da expectativa da primeira partida que demorou meses para acontecer ou se simplesmente inventei tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o saber ingl\u00eas, n\u00e3o ter internet, inventar tudo. Eu acho que levei dois anos para chegar ao final de&nbsp;<a href=\"https:\/\/href.li\/?http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Monkey_Island_2:_LeChuck%27s_Revenge\">Monkey Island 2<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira vez que tive que parar de jogar por um tempo pelo mais completo pavor foi em 1992, com&nbsp;<a href=\"https:\/\/href.li\/?http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Alone_in_the_Dark_%281992_video_game%29\">Alone in The Dark<\/a>. Os gr\u00e1ficos hoje em dia s\u00e3o mais dignos de provocar risadas do que desespero. Cortando para 2012, fui obrigado a desistir de&nbsp;<a href=\"https:\/\/href.li\/?http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Dead_Space_%28video_game%29\">Dead Space<\/a>por n\u00e3o aguentar a ansiedade e os sustos provocados pelos monstros caindo de tubos de ventila\u00e7\u00e3o escuros direto na minha cara (ou do personagem). No ano seguinte tentei de novo, exatamente o mesmo fracasso. Desenvolvi sozinho a cura para o trauma, que consistiu em assistir&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NkXzYBxrGrg\">v\u00eddeos de outras pessoas jogando como se n\u00e3o estivesse se passando absolutamente nada demais<\/a>. Deu certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Joguei&nbsp;<a href=\"https:\/\/href.li\/?http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Half-Life_2\">Half-Life 2<\/a>&nbsp;quase quatro anos depois do seu lan\u00e7amento. E tamb\u00e9m todos os epis\u00f3dios subsequentes, que d\u00e3o seguimento \u00e0 hist\u00f3ria. Confidenciei isso a um amigo, que me respondeu que gostaria de ser eu naquele momento para poder ter a sensa\u00e7\u00e3o de jogar Half-Life 2 pela primeira vez de novo. \u00c9 mais ou menos o que sinto com alguns livros e filmes que continuam existindo por algum tempo, mesmo depois que a experi\u00eancia termina. Durante alguns meses, fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel de estar vivendo uma vida longe dos personagens, sem saber o que acontecia com eles. Pouco depois, tentei preencher o vazio gigantesco lendo especula\u00e7\u00f5es sobre um novo jogo, que provavelmente jamais ir\u00e1 existir, e acabei me dando conta que a vida \u00e9 mais ou menos isso a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">#2<\/h2>\n\n\n\n<p>Seis anos depois de eu publicar esse texto pela primeira vez e quase dezesseis anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento de Half-Life 2, finalmente um novo cap\u00edtulo da s\u00e9rie veio ao mundo.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FqnEmmDeGHc\">Half-Life: Alyx<\/a>&nbsp;\u00e9 um&nbsp;<em>prequel<\/em>&nbsp;que foi concebido para ser jogado exclusivamente atrav\u00e9s de headsets de realidade virtual. Considerado de forma quase un\u00e2nime por cr\u00edticos e f\u00e3s como um dos maiores jogos j\u00e1 feitos para PCs, chegou a ser apontado como o&nbsp;<em>killer app&nbsp;<\/em>que tantas empresas est\u00e3o tentando produzir para tornar os \u00f3culos de VR um produto com apelo de massa. Mas parece que ainda n\u00e3o foi dessa vez. E confesso que minha avers\u00e3o a todo o conceito em si me impediu de investir no hardware que me permitiria imers\u00e3o total num dos mundos que mais me impressionaram nessa longa trajet\u00f3ria gamer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por ora, opto decidido pela melancolia do que poderia ter sido. Mas ao digitar essa esp\u00e9cie de posf\u00e1cio, confesso que em algum canto come\u00e7a a crepitar uma fagulha de quem sabe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">#3<\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Leitura<\/h3>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 boa demais&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/film\/2023\/oct\/15\/werner-herzog-documentary-film-memoir-every-man-for-himself-interview\">essa entrevista com o Werner Herzog<\/a>&nbsp;no Guardian. L\u00e1 pelo meio ele responde uma pergunta do cineasta Ken Burns sobre a influ\u00eancia dos sonhos na sua obra e a resposta n\u00e3o poderia ser mais Herzog:&nbsp;<em>I do not dream<\/em>. Quem sabe um colega de&nbsp;<em>aphantasia<\/em>? Imaginei o que seria de bom um document\u00e1rio dele sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>#1 [Publicado originalmente em 15 de outubro de 2014] A primeira lembran\u00e7a clara: sentado no ch\u00e3o de madeira da casa da zona sul em Porto Alegre, no que sempre se convencionou chamar de A Sala de Baixo: almofadas jogadas, uma televis\u00e3o RCA com tampo de madeira, talvez a lareira acesa no inverno. 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