{"id":50,"date":"2023-10-02T15:24:00","date_gmt":"2023-10-02T13:24:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/?p=50"},"modified":"2024-09-22T15:25:49","modified_gmt":"2024-09-22T13:25:49","slug":"a-crise-da-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/2023\/10\/02\/a-crise-da-vez\/","title":{"rendered":"A crise da vez"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/cb33d38e-1f30-4ab2-9033-bcf344090099_1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-51\" srcset=\"https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/cb33d38e-1f30-4ab2-9033-bcf344090099_1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/cb33d38e-1f30-4ab2-9033-bcf344090099_1024x768-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.brunogalera.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/cb33d38e-1f30-4ab2-9033-bcf344090099_1024x768-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">#1<\/h2>\n\n\n\n<p>A grande crise de sa\u00fade mental que est\u00e1 cada vez mais em evid\u00eancia por a\u00ed pode parecer um tanto artificial e um outro tanto for\u00e7ada. Acho que \u00e9 natural esse sentimento se manifestar em algumas pessoas j\u00e1 que parece algo que surge meio que do nada e acaba por ocupar grande espa\u00e7o na pauta de diversas publica\u00e7\u00f5es. E n\u00e3o ajuda a forma como o t\u00f3pico costuma ser abordado: com listinhas de 10 pontos infal\u00edveis, sa\u00eddas supostamente simples (como sair para caminhar para relaxar) e coisas do tipo. N\u00e3o \u00e9 algo de solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a crise existe e ela \u00e9 desastrosa. E se fosse realmente f\u00e1cil ela j\u00e1 teria sido domada. Por isso o melhor jeito de se inteirar sobre o tamanho do pepino \u00e9 come\u00e7ar a entender&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.who.int\/health-topics\/mental-health#tab=tab_1\">o que vem acontecendo nos \u00faltimos anos<\/a>&nbsp;e o impacto que isso vem causando nas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>E se houver um \u00fanico ponto positivo nessa exposi\u00e7\u00e3o recente do fen\u00f4meno acho que \u00e9 poder dar visibilidade a um sofrimento real. E, em paralelo, espero que seja tamb\u00e9m uma via para pavimentar rela\u00e7\u00f5es mais harm\u00f4nicas, novas legisla\u00e7\u00f5es trabalhistas e um caminho de menos sofrimento num futuro bem pr\u00f3ximo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">#2<\/h2>\n\n\n\n<p>Estou de licen\u00e7a do trabalho h\u00e1 seis meses. Ao me dar conta disso, o que primeiro vem \u00e0 mente? Nessa ordem:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Que vergonha insuport\u00e1vel estar tanto tempo fora do trabalho.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Que peso horr\u00edvel para minha fam\u00edlia e meus amigos mais pr\u00f3ximos.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Que privil\u00e9gio imenso e ao mesmo tempo constrangedor. Estou sem trabalhar h\u00e1 tanto tempo, recebendo tratamento, melhorando aos poucos e tudo isso sem passar por qualquer dificuldade financeira. No Brasil (ou em muitos outros lugares) provavelmente eu teria que calar a boca e fingir que nada est\u00e1 acontecendo como fiz at\u00e9 pouco tempo, at\u00e9 o copo transbordar.\u00a0<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>D\u00e1 para notar algum padr\u00e3o? Pois \u00e9. Vergonha. Culpa. Frustra\u00e7\u00e3o. O pacote todo aliado a uma d\u00edvida eterna com os outros. Comecei a priorizar meu bem-estar quando a coisa j\u00e1 tinha degringolado completamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Levei quase at\u00e9 o \u00faltimo m\u00eas da minha licen\u00e7a m\u00e9dica para finalmente conseguir admitir em voz alta: eu estou sofrendo um&nbsp;<em>burnout.&nbsp;<\/em>Na verdade, precisei de algu\u00e9m me dizendo em alto e bom som para finalmente processar internamente. N\u00e3o adiantaram sinais claros, nem preencher teste ap\u00f3s teste indicando a situa\u00e7\u00e3o de alto risco. E, mesmo com esse reconhecimento tardio, d\u00e1 para perceber no exerc\u00edcio acima que ainda assim n\u00e3o ajudou muito a aliviar o peso criado por essa situa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo num pa\u00eds onde a crise tem nome e n\u00fameros e uma rede de apoio p\u00fablica e privada, \u00e9 dif\u00edcil se movimentar num terreno onde&nbsp;<em>estar doente<\/em>&nbsp;n\u00e3o se encaixa nas expectativas de quem te olha saindo na rua. N\u00e3o estou preso na cama, nem num hospital, nem preciso de cuidado constante.&nbsp;<em>Estou em casa pois estou doente<\/em>&nbsp;geralmente \u00e9 acompanhado de estupefa\u00e7\u00e3o ou uma r\u00e1pida guinada no assunto do small talk inicial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Estou bem, mas j\u00e1 estive bem pior. Na real hoje \u00e9 um dia bem ruim. Estou bem fisicamente, mas meio desgra\u00e7ado da cabe\u00e7a.&nbsp;<\/em>Essas s\u00e3o algumas das respostas que tenho dado para a fat\u00eddica pergunta (sim, aquela). Mas em alguns dias sim, estou simplesmente&nbsp;<em>bem.&nbsp;<\/em>O que parece automaticamente me habilitar a retornar o quanto antes \u00e0s atividades. At\u00e9 que vem o outro dia. E o outro. E o outro. E a gente v\u00ea que n\u00e3o funciona bem assim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Isso n\u00e3o existia antes. Agora tudo \u00e9 burnout.<\/em>&nbsp;N<em>o meu pa\u00eds de origem ou como fui criado, a gente n\u00e3o pensa nisso e toca a ficha.<\/em>&nbsp;Ningu\u00e9m me disse isso: eu travo esses di\u00e1logos mentalmente todos os dias assim que acordo. Mesmo inserido na dificuldade, tudo parece ser question\u00e1vel, for\u00e7ado ou simplesmente distante do real. \u00c9 enlouquecedor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho nenhum insight enriquecedor para oferecer, nenhum conselho para dar. Provavelmente \u00e9 um assunto ao qual voltarei algumas vezes. Mas me pareceu relevante trazer \u00e0 tona j\u00e1 que tantas pessoas est\u00e3o vivenciando isso, todos os dias. E \u00e9 um assunto com o qual quase ningu\u00e9m sabe lidar direito. Mas n\u00e3o precisa ser assim. N\u00e3o vai ser sempre assim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na real, tenho um conselho sim: t\u00e1 pesado demais? Fale com algu\u00e9m. Est\u00e1 apresentando sintomas que impedem seu funcionamento b\u00e1sico no dia a dia? Procure ajuda. Por que isso \u00e9 algo que n\u00e3o tende a desaparecer e vai cobrar seu pre\u00e7o mais cedo ou mais tarde. Se j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 cobrando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">#3<\/h2>\n\n\n\n<p>Algumas recomenda\u00e7\u00f5es de coisas que me impressionaram, fascinaram ou emocionaram recentemente:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Podcast<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.b9.com.br\/shows\/primeirocontato\/\">Primeiro Contato<\/a>: o jornalista Henrique Sampaio criou um documento essencial que narra os prim\u00f3rdios e desenvolvimento da computa\u00e7\u00e3o e da internet comercial no Brasil. Falou alto aqui por narrar muitos momentos-chave da minha vida e de muita gente. Ainda tece um panorama do presente que d\u00e1 o que pensar sobre o futuro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Livro<\/h3>\n\n\n\n<p>Trilogia&nbsp;<a href=\"https:\/\/us.macmillan.com\/series\/outlinetrilogy\">Outline, da Rachel Cusk<\/a>. Estou quase terminando o terceiro volume e adiando ao m\u00e1ximo pois n\u00e3o quero que acabe. A escrita \u00e9 brilhante e os personagens ganham forma \u00e0s custas da narradora, que parece estar ali inicialmente para ser protagonista e acaba servindo como ve\u00edculo para seus relatos e experi\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>The shops were the same shops you saw in town centres around the world and the bars and caf\u00e9s were touristic versions of themselves in the same inevitable way as everywhere else, and so this regeneration, she said, begins to look a little like a mask of death. Europe is dying, she said, and because every separate part is being replaced as it dies it becomes harder and harder to tell what is fake and what is real, so that we might not realise until the whole thing has gone.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>Kudos: A Novel (Outline Trilogy Book 3)<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">M\u00fasica<\/h3>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/music.apple.com\/nl\/album\/loose-future\/1620964536?l=en-GB\">Loose Future, Courtney Marie Andrews<\/a>. Disco de 2022 da cantora que recentemente abriu a tour europeia do Wilco. Americana com um p\u00e9 no pastoral e outro em bar de beira de estrada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/music.apple.com\/nl\/album\/love-hurts\/1447412445?l=en-GB\">Julian Lage, Love Hurts<\/a>&nbsp;(2019): o primeiro \u00e1lbum auto-produzido pelo fen\u00f4meno do jazz. Gravado ao vivo no est\u00fadio e quase todos os n\u00fameros no primeiro take, demonstra parte da obsess\u00e3o do artista em achar os timbres perfeitos para contar uma hist\u00f3ria. Jazz, mas uma pilha mais cavernosa. O baix\u00e3o, a guitarra distorcida, o clim\u00e3o. Parece um disco instrumental do Tom Waits em alguns momentos. E a vers\u00e3o de Love Hurts \u00e9 ao mesmo tempo mais alegre e mais suja. Lage ainda \u00e9 um gentleman absurdamente eloquente e que transmite uma paz quase desconfort\u00e1vel quando fala. Recomendo tamb\u00e9m&nbsp;<a href=\"https:\/\/youtu.be\/49KwbU0hT3w?si=SnpHGR0M3IK_IXGu\">essa entrevista dele com Rick Beato<\/a>, onde fala mais sobre algumas das suas escolhas t\u00e9cnicas idiossincr\u00e1ticas e sua jornada como m\u00fasico prod\u00edgio que agora foca basicamente no que \u00e9 essencial e vital.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>#1 A grande crise de sa\u00fade mental que est\u00e1 cada vez mais em evid\u00eancia por a\u00ed pode parecer um tanto artificial e um outro tanto for\u00e7ada. 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